Mecanismos Neuropsicofisiológicos da Hipnose

Mello, P. (2000) – Dissertação de Mestrado
Universidade Metodista de São Paulo

Resumo

Temos observado que nos últimos anos a hipnose vem sendo cada vez mais utilizada nos meios científicos e acadêmicos como importante instrumento de estudo e auxílio clínico nas áreas da Medicina, Psicologia e Odontologia. A cada ano o número de artigos publicados na área aumenta visivelmente. Com o avanço tecnológico, a hipnose vem sendo estudada por meio de exames como eletrencefalografia digital, mapeamento cerebral, potenciais evocados, ressonância funcional e tomografia por emissão de pósitrons. Estes estudos abrem novas perspectivas e outras questões surgem com seus resultados. Por meio de um levantamento bibliográfico de mais de 1.100 artigos, desde 1809 até 1999, em língua inglesa, francesa, espanhola, portuguesa, alemã e holandesa, procuramos separar o que consideramos mais relevante no estudo dos mecanismos neuropsicofisiológicos da hipnose e sua evolução. Diante do que foi exposto podemos concluir: (1) não existe ainda evidência fisiológica da dissociação entre as funções das áreas heteromodais, (filosofar, abstrair, calcular, estas áreas correspondem a 70% de todo o córtex) áreas unimodais sensitivas (áreas mais próximas das áreas de projeção sensitiva e sensorial. São responsáveis pelo processamento de apenas uma modalidade sensitiva, por exemplo, visão) e áreas motoras; (2) durante a indução praticamente todo hemisfério cerebral esquerdo é ativado, e nas fases de sugestão, analgesia e alucinação existe visível ativação do giro anterior do cíngulo à direita; (3) alucinar sob hipnose e imaginar em estado de vigília são eventos que para ocorrerem utilizam circuitos cerebrais distintos (na imaginação o giro anterior do cíngulo não está envolvido – área componente do sistema límbico); (4) por meio da hipnose podemos alterar consideravelmente funções que envolvem o Sistema Nervoso Autônomo responsável pelas funções primitivas ligadas ao hipotálamo e tronco cerebral por influência da palavra e do rapport, tais quais: aumento da freqüência cardíaca, redução da pressão arterial, sialosquiese (redução da salivação), ou mesmo reduzir o fluxo sangüíneo arterial das extremidades – mensurado em doppler – etc…

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Atualização

Realizamos estudo complementar com mais 198 artigos sobre hipnose publicados desde 2000, inclusive até maio de 2001. Interessante ressaltar que teorias que envolvem a biologia molecular sobrepõem o conhecimento dos circuitos neurais durante o processo hipnótico, complementando a conexão entre eventos sociopsíquicos (conseguir um emprego e deste modo alegrar-se com isto, ficar mais motivado e feliz) e psicossomáticos (adoecer por um processo infeccioso por conta de uma depressão, produto de uma reflexão consciente ou inconsciente, ou mesmo por causa de uma notícia desagradável…) desde a exterocepção (informações vindas do ambiente das mais variadas formas e significados) e incluindo mensageiros químicos tais quais os immediates early genes (IEgs), já são conhecidos mais de cem (100), os quais parecem ser produzidos já nos primeiros minutos de qualquer evento resultado de um relacionamento – tal qual hipnose. Estes mensageiros químicos orientam a expressão genética de todas as células de nosso corpo assim como a ativação circuitual neural que resultará em um determinado comportamento, sentimento, estado de humor, ou mesmo a produção de determinados hormônios, neuromoduladores, neurotransmissores, enzimas, ou mesmo a expressão genética para as interleucinas-2, reduzindo a função imunológica.
Deste modo, associando tais conhecimentos com a teoria de Rhodes, parece haver durante a indução hipnótica por meio da palavra, ativação do hemisfério cerebral esquerdo, região occipital e giro do cíngulo. Com o aprofundamento, desativa-se o giro frontal superior esquerdo com redução da atividade elétrica para o ritmo beta 3, o que parece incrementar a capacidade de pensamento dedutivo, o que faz o cérebro do indivíduo crer que a mensagem sugerida é real, respondendo à ela através de sua conduta psicossocial e orgânica. Isto se concretiza por meio da ativação de diversos circuitos que envolvem áreas de memória, áreas heteromodais – de associação – o giro anterior do cíngulo à direita, formação reticular, e até a medula (mecanismo de analgesia por hipnose) entre outras áreas. Trabalhos dos últimos cinco anos apontam para o fato de que a capacidade de gerar imagem interna ou externa (imaginação e alucinação hipnótica) são fundamentais para que o cérebro aceite uma idéia como real (sugestão) e reaja como tal. Este elemento talvez seja o responsável pela ativação dos IEgs que desencadearão a transcrição do DNA que resultará em uma resposta fisiológica que pode envolver o Sistema Nervoso Autônomo, Sistema Endócrino, Sistema Imunológico, Neuromoduladores, e enfim determinar como os circuitos neurais serão ativados para uma determinada função, por exemplo, a sensação de bem estar, a confiança ou mesmo a analgesia.

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Dados do autor:

Paulo de Mello

• Médico Neurologista Clínico pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP),
e pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
• Fisiologista pós-graduado pela Faculdade de Medicina do ABC.
• Prof. de Neurofisiologia do curso de graduação e pós-graduação do
Depto. de Fisiologia e Morfologia de Faculdade de Medicina do ABC.
• Mestre em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista de São Paulo.
• Doutorando do Departamento de Psicobiologia Clínica da Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP).
• Hipniatra certificado e membro da American Society of Clinical Hypnosis – USA.

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